Campus Party, que acontece nesta semana, em São Paulo: inclui debates sobre mulheres, negros e pessoas LGBTI no setor de tecnologia.

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Portal das Gerais- O seu portal de Segurança Pública e Notícias –  edição Jane Huscher

Entre exposições de supercomputadores, drones, impressoras 3D e discussões sobre programação, astronomia e ciência, um assunto chamou a atenção na 12ª edição da Campus Party, que acontece nesta semana, em São Paulo: como incluir mais mulheres, negros e pessoas LGBTI no setor de tecnologia.

Só entre quarta (13) e quinta-feira (14), a diversidade foi o principal tema de ao menos 8 palestras no maior palco do evento, que também contou com painéis compostos exclusivamente por mulheres.

“Pelo que vi, este ano eles se preocuparam bastante [em trazer discussões] com relação às meninas e também às meninas negras aqui”, diz a estudante de relações internacionais Ester Borges, de 21 anos, que tem um projeto para ensinar programação para garotas e está na Campus Party pela primeira vez.

A estudante Ester Borges, 21, tem um projeto para ensinar meninas a programar e foi à Campus Party pela primeira vez — Foto: Luísa Melo/G1

A organização, no entanto, nega um movimento intencional. “A gente procurou, na verdade, trazer pessoas boas dentro dos temas de conhecimento que a gente aborda. E tem muita gente boa aí, seja negro, seja LBGT, seja mulher, branco, amarelo, rosa”, diz o diretor-geral Tonico Novaes.

Dividindo o palco com outras cinco mulheres para falar sobre equidade de gênero nas empresas, Maitê Lourenço, psicóloga e fundadora da BlackRocks, instituição que ajuda negros a criarem startups, fez uma provocação. “Olhem ao redor e vejam quantas pessoas negras tem perto de vocês. Quem não se incomodar com essa imagem, a gente precisa conversar”.

Foi aplicando o chamado “teste do pescoço” que ela chamou a atenção para o fato de que o público da Campus Party, assim como todo o setor de tecnologia, ainda é majoritariamente branco.

Outra convidada que abordou o tema foi a executiva Nina Silva. Ela é uma das fundadoras do Movimento Black Money, que busca fomentar o empreendedorismo negro e fazer com que o dinheiro dessas pessoas circule na própria comunidade.

Nina chamou a atenção para o fato de que muitos negros e integrantes de outras minorias continuam sendo “estereotipados e maltratados” mesmo quando ocupam altos níveis dentro das empresas e são bem remunerados.

Uma solução para isso, segundo ela, “é criar as próprias cadeiras” e fazer boicotes às companhias não comprometidas com sua causa. “Não vou comprar de empresas que me subjugam”.

A executiva deu sua contribuição para “enegrecer”, como ela diz, e diversificar a própria Campus Party.

Ela recebeu 30 ingressos como contrapartida pela palestra e selecionou pessoas que fazem parte da sua rede para participar do evento. Dessas, segundo ela, 25 são negras, 15 são mulheres e 2 são pessoas com deficiência.

A prefeitura de São Paulo, apoiadora institucional, fez algo parecido. Depois de uma seleção, dos 300 campings que tinha para distribuir, doou 140 para mulheres. E dos 1,1 mil ingressos de campuseiros, 655 foram cedidos a garotas, 180 a homens negros periféricos e mais de 100 a pessoas LGBT, segundo a produtora Kamila Camilo.

Ana Alice Costa, de 33 anos, foi uma das pessoas que ganhou o ingresso da prefeitura. Mulher trans, ela atua no setor de TI há mais de 12 anos e conta que tem dificuldade para conseguir emprego desde que começou o processo de transição, há cerca de 3 anos.

“Cheguei a ouvir, em uma entrevista, a menina do RH que me entrevistou falar com o gestor: a pessoa se encaixa na vaga, mas não dá para contratar. Como nossos clientes vão vê-la?”. Ela afirma que poder ter seu nome social no crachá da Campus Party é um ponto positivo. “Pode parecer um detalhe pequeno, mas, psicologicamente, faz diferença.

A premiada pesquisadora Joana D’Arc Félix, que enfrentou a pobreza na infância e sofreu com o racismo, falou sobre a importância da inclusão social. Ela diz que é importante não se vitimizar e seguir em frente apesar dos obstáculos.

Joana leciona em uma escola técnica em Franca, no interior de São Paulo, e concede bolsas de iniciação científica aos estudantes. Ela diz que só contempla aqueles que estão envolvidos com tráfico e prostituição, e não para os com melhor desempenho escolar, por um motivo.

A cientista Joana D’Arc Félix fala a campuseiros em palestra na noite de quarta-feira (13) na Campus Party 2019 — Foto: Fábio Tito/G1

“Se nós trabalharmos só com os melhores, os ditos problemáticos, os piores, sempre serão excluídos. Então a gente nunca vai ter um Brasil 100%. A gente tem que dar oportunidade para esses ditos piores, porque dando oportunidade, eles têm condição de mostrar o talento, colocar aquele talento que está adormecido, escondido”, disse.

A Campus Party espera 13 mil campuseiros até domingo (17) e não divulgou quantos deles são mulheres, nem a fatia feminina entre os palestrantes.

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